quarta-feira, 8 de junho de 2011

, ela olha.
A mão não consegue deslizar sobre
É de pano.
é cerâmica
A boca olha

semi-aberta
tal a palavra deserta
que ninguém ouviu

Uma mão alheia sobre a nuca
(não existe)
a consola

O que vê
entre folhas e
é um céu de plástico que não se mexe

, ela olha
(a mão sua
apenas se encosta, à frente)

à espera da chuva que

, ela olha
a mão não consegue atravessar
é vidro

da chuva que não vem

Apesar de o céu,
apesar, o céu
contorcido
num berro
há séculos
não chove

Encostada, ela espera

domingo, 9 de janeiro de 2011

Fragmento de um sonho - I


–  É para lá o futuro. A senhora não vê?

Não, não via. A idade descolore os olhos. Apenas os campos ela via, ela os vê, o outrora, veja, é a eterna alvorada, e de repente a noite. A noite haverá de chegar, mesmo aquela pintura pendurada acima da poltrona traz o preto no contorno das formas. Toda forma anuncia um desespero.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Iniciação

A mãe pôs a laranja no prato. Ele não quis: pegou apenas a casca, ao lado, feito uma serpente enroscada. No quintal, a girou com força, a mão para cima. A, b, c, d... Ela se rompeu na letra l. Como jamais encontrou qualquer Leandra, Letícia ou Lúcia com quem pudesse assentar família, os vizinhos disseram, anos mais tarde, ter sido este o dia em que seu casamento com a literatura foi revelado.

Há quem diga de modo distinto:

Era um imitador de notas fiscais. Depois de a porta metálica, escondida no alto, se desenrolar até fechar a venda, o menino ia para os fundos da loja contar o estoque. Sobre cada saco fechado de arroz e batata havia a folha de papel onde se registravam os valores. Sem que ninguém o visse, ele a imitava na palma da mão. Mas não copiava os números, só as poucas letras. Assim foi como aprendeu a escrever e virou escritor.

Há quem discorde:

Quando chegou à sala de aula, sem o suor dos retardatários, soberbo por haver acumulado vinte e três minutos de antecedência, já se dizia escritor. O mestre, um senhor sem barba e com o costume de levar um lenço azul na lapela, assentiu com a cabeça. Deu-lhe agulha e linha e pediu que costurasse. O rapaz, apressado, furou os dedos e se manchou de sangue e pus. Até que pediu ajuda. O mestre lhe contou: ninguém torna-se escritor antes da hora. Nem depois.

* Para Assis Brasil

domingo, 7 de novembro de 2010

Mães e filhos

Não saiu de casa. Tinha já cinqüenta anos, mas vivia de mesada. Era tão velho quanto seria uma cidade antiga, com pilastras em estilo jônico e vasos de barro. Mas não saiu de casa. Seria por demais indelicado. Ele tinha a pele alva, o escasso cabelo assentadinho sob a demão de um gel fosco, não iria combinar. Sua genealogia, um tanto misteriosa – por que não promíscua, como diziam alguns? , foi como haver sufocado com terra o bico de um tangará: do pai, nada soube. A mãe trabalhou trinta e sete anos como professora primária, ganhando um salário de professora primária, menor que o da capital, mas que permitiu a mesada ao filho; depois se aposentou, ganhou uma aposentadoria menor que a da capital, mas que, por sua vez, também permitiu a mesada ao filho. A mãe não falava sobre o pai com ele, que não falava sobre o pai com ela. Ficavam os dois na casa. Não gostava tanto da morada a ponto de lhe ser impossível pousar noutro sítio. Apenas tinha no cheiro do alho frito em óleo de soja sua companhia. Era mãe cozinhando. É claro que com os anos toda essa companhia se tornou absurda: a pele da mãe ficou pegajosa, um torpor no rosto; ele chegou mesmo a notar que da panela subia um cheiro de queimado; também passou a verificar, com o cuspe no dedo, o vazamento de gás durante a noite. Mas daí que berrasse ajuda, não seria por demais falta de gentileza. Encontraram Davi à beira do fogão, de manhã. Asfixiado. Tinha já cinqüenta anos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Chuva

Cada traço é um pedaço de nervo com a veemência de um coração bárbaro. Oswaldo Goeldi.

domingo, 17 de outubro de 2010

Sobre história

Versões de um náufrago que se orientou pela falta, bebeu água salgada, nauseou as voltas. Porção de uma superfície em rotação. Quando Deus vier, com que mãos vai suturar minhas feridas? Com que voz ordenará a repentina retirada da febre e do abismo? Com que razão poderei consentir que arranque de mim a sífilis, o silêncio? As malhas não me civilizaram. 

Do lado costeiro da vida, da dúvida originária que mutilou meu salto para dentro da moradia-mundo, eu inventei trevos voadores. Hoje, é da porta de entrada que eu olho e acolho dois os lados. Ama-seca me concebeu à revelia. Concepção porque fui me tornando, ouvia zumbido e gritava, os trópicos pontilhando os mares. Aceito as gravuras que me cabem. Só não quero desaparecer. Abro meus braços tatuados de dentes e mistérios.

sábado, 16 de outubro de 2010

Mistério é quem pode compor o sim e o não, as possibilidades.