A mãe pôs a laranja no prato. Ele não quis: pegou apenas a casca, ao lado, feito uma serpente enroscada. No quintal, a girou com força, a mão para cima. A, b, c, d... Ela se rompeu na letra l. Como jamais encontrou qualquer Leandra, Letícia ou Lúcia com quem pudesse assentar família, os vizinhos disseram, anos mais tarde, ter sido este o dia em que seu casamento com a literatura foi revelado.
Há quem diga de modo distinto:
Era um imitador de notas fiscais. Depois de a porta metálica, escondida no alto, se desenrolar até fechar a venda, o menino ia para os fundos da loja contar o estoque. Sobre cada saco fechado de arroz e batata havia a folha de papel onde se registravam os valores. Sem que ninguém o visse, ele a imitava na palma da mão. Mas não copiava os números, só as poucas letras. Assim foi como aprendeu a escrever e virou escritor.
Há quem discorde:
Quando chegou à sala de aula, sem o suor dos retardatários, soberbo por haver acumulado vinte e três minutos de antecedência, já se dizia escritor. O mestre, um senhor sem barba e com o costume de levar um lenço azul na lapela, assentiu com a cabeça. Deu-lhe agulha e linha e pediu que costurasse. O rapaz, apressado, furou os dedos e se manchou de sangue e pus. Até que pediu ajuda. O mestre lhe contou: ninguém torna-se escritor antes da hora. Nem depois.
* Para Assis Brasil